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“Nada a Perder” exalta a fé, mas minimiza o Evangelho

“Nada a Perder” exalta a fé, mas minimiza o Evangelho

segunda, 02 de abril de 2018

A primeira parte de “Nada a Perder”, cinebiografia sobre o bispo Edir Macedo, ganhou o subtítulo “Contra Tudo. Por Todos”. A frase resume bem a que se propõe o longa de duas horas e quinze minutos.

A narrativa começa lenta, tentando ressaltar o caráter, a determinação e, sobretudo, a fé do protagonista. Como se trata de uma obra inspirada em fatos reais, o expectador poderá reconhecer nas telas alguns episódios que assistiu nos noticiários algumas décadas atrás.

A ascensão de Edir Macedo (vivido por Petrônio Gontijo), um menino da família pobre, vindo do interior do Rio de Janeiro, e se tornou conhecido em muitos lugares do mundo deve-se ao tripé: prosperidade, curas e libertação. Essa é à base de sustentação da Igreja Universal do Reino de Deus, e que se vê claramente nas telas.

De um pregador desacreditado num coreto da cidade até o homem que chegou a lotar o Maracanã e o Maracanãzinho ao mesmo tempo para uma “concentração de fé”, a história é longa e cheia de percalços.

Macedo aparece dizendo que seu único propósito era pregar o evangelho e ganhar almas para Deus pelo mundo. Contudo, o filme tem menos sermões que se podia imaginar. Elementos básicos da doutrina cristã, como arrependimento de pecados, a necessidade de novo nascimento são ignorados, dando espaço para a necessidade de fé e “acreditar em si mesmo”.

As dificuldades pessoais vividas pela família de Macedo, ao lado da esposa Ester (Day Mesquita), são superadas sempre com essa fé em Deus e na sua própria capacidade. Chama à atenção a maneira como ele é contrastado com os outros líderes religiosos com quem ele chegou a trabalhar – Bispo Roberto McAlister e R. R. Soares – que nunca acreditaram em seu potencial.

Também são líderes religiosos (católicos) os vilões da história, que tentam impedir o crescimento da Universal, classificada por eles de “seita” o tempo todo. A compra da TV Record e a sua prisão em 1992, ocupam boa parte da narrativa, justificando o “contra tudo”.

A vida do protagonista é contada em três atos: infância, juventude e conversão e estabelecimento da IURD. As acusações de charlatanismo e a perseguição religiosa que Macedo foi vítima nas décadas de 1980 e 1990 parecem deslocados no Brasil de hoje, cada vez mais pentecostal. Mas servem como uma breve lição de história sobre o tempo em que, para ser evangélico no Brasil, era necessário coragem.

A direção de Alexandre Avancini remete a “Nada a Perder” uma linguagem excessivamente televisiva. A edição e a dinâmica de alguns diálogos remetem a muitos folhetins bíblicos da Record, especialmente Apocalipse. Assim como na novela, existe um embate religioso e político constante, que afeta diretamente a vida das pessoas.

A atuação de Petrônio Gontijo é convincente, mas a dos demais obreiros e pastores, como R. R. Soares (André Gonçalves) soam um tanto inverossímeis para quem possui uma vivência em igrejas evangélicas.

O longa-metragem é uma boa produção para quem gosta de histórias de superação e filmes que reforcem os valores cristãos. Há de se lamentar, contudo, que perca uma grande oportunidade de apresentar o evangelho de forma clara, pois ao mesmo tempo que critica a representação católica de um “Cristo morto”, pouco tem a dizer sobre o “Cristo vivo” que prega o protagonista.

A continuação de “Nada a Perder” deve mostrar quando um pastor da Igreja Universal do Reino de Deus chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, no dia 12 de outubro de 1995, em uma transmissão feita pelo programa “O Despertar da Fé”, da TV Record. O evento, protagonizado por Sérgio Von Helder, causou indignação em muitos brasileiros e fez com que Edir Macedo afastasse o Helder. O pastor foi condenado a dois anos e dois meses de prisão por crimes de discriminação religiosa e vilipêndio a imagem. Atualmente, vive nos Estados Unidos.

 

Fonte: gospelprime

 

 

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